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Médica fala sobre a batalha pela aprovação do uso da cannabis medicinal no Brasil

LUTA


Muitas associações foram criminalizadas, sofreram ordens de busca e apreensão, tentativas de suspensão das atividades e outras sanções pesadas


Por Aristides Barros



Carloline na Anvisa defendendo a regulação

A médica veterinária Caroline Campagnone, 31 anos, está entre as tantas pessoas que enfrentaram vários obstáculos ao encampar a luta pela aprovação da cannabis medicinal. 


Na entrevista ao Efeito Letal ela fala sobre os momentos tensos e aflitivos que todos viveram quando decidiram entrar no que virou uma verdadeira batalha pela ciência, contra o preconceito e em benefício da vida. 


Caroline é pós graduada em clínica e cirurgia de pequenos animais, cannabis medicinal e endocanabinologia, e mestranda pesquisadora da Universidade Federal Rural de Pernambuco. 


EL - Dra, você junto a outras pessoas e associações esperaram quanto tempo por essa decisão de liberação de tratamentos específicos com o uso de cannabis?


Caroline - Esse é um processo que não começou agora. Falamos de uma década de construção que estou participando e quando cheguei, tinha gente há mais de uma década lutando. De forma mais organizada e intensa, especialmente nos últimos 15 anos, com associações de pacientes, profissionais, pesquisadores e famílias atuando de forma contínua. Foi um caminho longo, marcado por avanços graduais, decisões judiciais pontuais e muita persistência. E o cenário que temos hoje não é perfeito, ainda temos muito a trabalhar em prol de uma regulamentação que atenda todas as necessidades da sociedade.


EL - Qual associação você representa e quantas associações se envolveram nesse movimento pró-liberação do uso medicinal da cannabis?


Caroline - Atualmente atuo como diretora da AMEC-VET, associação dedicada à endocanabinologia veterinária e à construção científica, ética e regulatória desse campo, além de integrar e dialogar com diversas frentes institucionais e profissionais.

Não existe um número único fechado, mas falamos de em média 300 associações de pacientes em todo o Brasil, além de coletivos científicos, grupos de pesquisa e entidades profissionais que, cada uma a seu modo, contribuíram para esse avanço.


EL - Como se desenrolou esse embate e em quais campos ele aconteceu? Houve momentos em que pensou em desistir da luta?


Caroline - Esse embate aconteceu em múltiplos campos ao mesmo tempo. No campo jurídico, com ações judiciais e decisões que abriram precedentes importantes. No campo científico, com a produção e consolidação de evidências que sustentassem o uso terapêutico da cannabis. No campo ético, discutindo o direito ao tratamento, à dignidade e à qualidade de vida. E também no campo regulatório e institucional, com diálogo constante junto a órgãos públicos.

Houve momentos muito difíceis, sim. Momentos de frustração, sensação de retrocesso e muito cansaço. A AMEC-VET, por exemplo, foi uma das cerca de 20 associações criminalizadas no Brasil, enfrentamos perseguições, busca e apreensão, tentativas de suspensão de atividades e outras sanções. Foram períodos em que nos sentimos acuados, mas desistir nunca foi uma opção real quando se olha para os pacientes que dependem dessa terapia para viver com mais qualidade.

No âmbito da medicina veterinária, o cenário foi ainda mais sensível. No início da minha atuação com a prescrição de cannabis, o simples ato de prescrever uma substância canabinoide era interpretado como crime de tráfico de drogas. Bastava um papel, um carimbo e uma caneta indicando um tratamento com efeitos analgésicos, anti-inflamatórios ou imunomoduladores para que o profissional corresse esse risco.

Quando levei essa realidade ao conhecimento do Conselho Federal de Medicina Veterinária, fui convidada a integrar um grupo de trabalho para tratar da regulamentação do uso de substâncias canabinóides

 na medicina veterinária. Iniciei esse trabalho como secretária do GT em 2022 e, após intensa articulação com os órgãos competentes, participamos da 21ª reunião deliberativa, em 30 de outubro de 2024. Dela, saiu a aprovação da RDC 936, publicada em 5 de novembro de 2024, que regulamentou o uso da cannabis na medicina veterinária.

Com o cumprimento do objetivo do grupo de trabalho, fui convidada a assumir a Presidência da Comissão Nacional de Endocanabinologia Veterinária do Conselho Federal de Medicina Veterinária, para dar continuidade às demandas posteriores. A partir daí, o CFMV e os Conselhos Regionais passaram a promover ações educativas, matérias, podcasts e eventos para conscientizar a categoria.

Já como presidente da comissão, fiz a manifestação oficial do Conselho Federal na primeira reunião de 2025, em 28 de janeiro, deixando claro o posicionamento institucional e a disposição do CFMV em caminhar junto com a ANVISA e também em articulação com o MAPA na construção dessa regulamentação.

Portanto, foram várias frentes simultâneas: a frente dos pacientes e responsáveis, a frente científica, a frente regulatória e a frente institucional da medicina veterinária. Todas elas foram fundamentais para que esse avanço se tornasse possível.



A médica em debate

EL - Nessa batalha, quais foram os principais adversários e quais argumentos eles usavam?


Caroline - O principal adversário sempre foi o estigma histórico associado à cannabis, um estigma que tem raízes racistas e preconceituosas, construído ao longo do século XX em diferentes partes do mundo, inclusive no Brasil. A criminalização da planta não surgiu de uma avaliação científica de risco, mas de contextos políticos, econômicos e sociais que associaram seu uso a populações marginalizadas, criando uma narrativa de perigo e desordem que se perpetuou por décadas.

Esse histórico foi acompanhado por desconhecimento científico e por um medo regulatório, que dificultou o avanço de pesquisas e o acesso a dados robustos. Durante muito tempo, a própria proibição impediu que a ciência avançasse com a velocidade necessária, criando um ciclo em que se exigia evidência de uma planta que não se permitia estudar.

Além disso, houve também uma forte resistência de interesses econômicos, especialmente de setores da indústria farmacêutica, que buscaram manter o monopólio sobre moléculas isoladas ou sintéticas. A cannabis, por ser uma planta, de cultivo relativamente fácil e com múltiplas aplicações terapêuticas, sempre representou uma ameaça a modelos fechados de produção e patenteamento. Houve pressão para que apenas moléculas isoladas fossem aceitas, apesar de a ciência já demonstrar que, em muitos casos, os compostos da planta atuam de forma mais eficaz em sinergia, no chamado efeito entourage.

Os argumentos mais comuns utilizados contra o uso medicinal foram:

suposta falta de evidência científica; alegado risco sanitário; confusão deliberada entre uso medicinal e uso recreativo; receio de perda de controle regulatório.

Curiosamente, muitos desses argumentos ignoravam o fato de que diversos medicamentos amplamente utilizados na prática clínica apresentam margens terapêuticas mais estreitas, maior potencial tóxico e efeitos adversos mais relevantes do que os fitocanabinoides, quando utilizados de forma adequada e supervisionada.

Esse cenário também se conecta a um contexto histórico mais amplo. A versatilidade da cannabis como matéria-prima, utilizada historicamente para fibras, tecidos e outros produtos, foi progressivamente substituída por alternativas industriais mais lucrativas, como o nylon e o algodão em determinados períodos, o que contribuiu para sua marginalização econômica e regulatória.

Com o tempo, a ciência, os dados clínicos e a experiência real dos pacientes começaram a desmontar essas narrativas. Hoje, o que vemos é um movimento de correção histórica, em que o debate deixa de ser ideológico e passa a ser baseado em evidência, ética e direito à saúde.


EL - De que forma essa decisão representa uma vitória da medicina e dos pacientes e seus familiares?


Caroline - É uma vitória da medicina porque reconhece a ciência, a complexidade do cuidado e a necessidade de atualização terapêutica.

E é uma vitória dos pacientes e das famílias porque amplia o acesso, reduz insegurança jurídica e oferece caminhos mais claros, seguros e dignos para o tratamento.

Não se trata apenas de um medicamento, mas de direito à saúde e à qualidade de vida.


EL - O que você tem a dizer a todos que participaram desse trabalho que terminou de forma vitoriosa?


Caroline - Essa vitória é coletiva e atravessa o tempo. Ela pertence aos pacientes que nunca desistiram, às famílias que lutaram mesmo em momentos de desespero, aos profissionais que estudaram, pesquisaram e se posicionaram, e às associações que sustentaram essa luta quando parecia impossível.

Mas ela também é fruto de um caminho muito mais antigo. Antes de nós, muitas gerações já preservavam o conhecimento sobre essa planta, transmitindo saberes mesmo em contextos de perseguição, apagamento e criminalização. A relação da humanidade com a cannabis atravessa milhares de anos, e esse saber ancestral foi fundamental para que hoje a ciência pudesse reencontrar, validar e aprofundar esse uso terapêutico.

Nada disso foi rápido ou fácil. Houve perdas, silenciamentos e retrocessos ao longo da história. Ainda assim, o conhecimento resistiu. E hoje, ele se alia à ciência, à ética e à regulação para garantir cuidado, dignidade e acesso responsável.

Essa vitória é resultado de quem veio antes, de quem caminhou junto e de quem continua trabalhando agora. Porque esse marco não encerra a luta, ele inaugura uma nova fase. O trabalho continua.


NOTA DA REDAÇÃO - É importante destacar que o cultivo será liberado apenas para pessoas jurídicas e que o plantio não foi liberado para a população em geral, e não tem relação com uso recreativo


 


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