VIOLÊNCIA POLICIAL
Estudo realizado pela Rede de Observatórios da Segurança traz 4.330 mortes em ações policiais em 2025, maior número da série histórica. Pessoas negras representam 86,3% das vítimas
Da redação
A letalidade policial atingiu o maior patamar da série histórica iniciada em 2019 nos nove estados monitorados pela Rede de Observatórios da Segurança. Em 2025, foram registradas 4.330 mortes decorrentes de intervenção policial, um aumento de 6,4% em relação ao ano anterior. Entre as vítimas com raça ou cor informada, 86,3% eram pessoas negras.
Os dados integram a sétima edição do relatório Pele Alvo: entre racismo e letalidade, o amanhã, publicação anual que analisa a violência policial nos estados do Amazonas, Bahia, Ceará, Maranhão, Pará, Pernambuco, Piauí, Rio de Janeiro e São Paulo. Produzido a partir de informações obtidas junto às secretarias estaduais de segurança por meio da Lei de Acesso à Informação (LAI), o estudo busca evidenciar como o racismo segue estruturando a política de segurança pública brasileira e quem continua sendo o principal alvo da violência estatal.
Racismo estrutura a letalidade policial
Ao longo dos últimos sete anos, a Rede contabilizou 28.799 mortes provocadas por intervenções policiais. Para os pesquisadores, os números revelam que, apesar das mudanças nas políticas de segurança e da expansão dos conflitos envolvendo facções criminosas em diferentes regiões do país, permanece inalterado o perfil das vítimas: jovens negros moradores de periferias.
O levantamento mostra que a desigualdade racial é um traço constante da letalidade policial. Em todos os estados monitorados, a proporção de pessoas negras mortas pela polícia supera a participação da população negra na composição demográfica estadual. No Amazonas, por exemplo, as pessoas negras representam 73,7% da população, mas correspondem a 96% das vítimas.
Em Pernambuco, essa proporção chega a 94,4%, enquanto na Bahia alcança 93,9%. O estudo também aponta que, na média dos estados analisados, pessoas negras têm quatro vezes mais chances de morrer em ações policiais do que pessoas brancas. Em Pernambuco, esse risco é 11 vezes maior, e, no Rio de Janeiro, seis vezes maior.
Juventude negra é a principal vítima
A juventude continua sendo o principal alvo da violência estatal. Em 2025, 64,8% das vítimas tinham até 29 anos, totalizando 2.804 pessoas. Entre elas, 310 eram adolescentes de 12 a 17 anos. Para os autores do relatório, a morte precoce de jovens evidencia uma política de segurança centrada no confronto e incapaz de garantir o direito à vida.
Bahia lidera ranking e quatro estados batem recorde
Entre os estados monitorados, a Bahia registrou o maior número absoluto de mortes decorrentes de intervenção policial: foram 1.570 casos, mantendo o estado acima da marca de mil mortes pelo quinto ano consecutivo. São Paulo (834), Rio de Janeiro (800) e Pará (632) aparecem na sequência. Ceará, Maranhão, Pará e São Paulo registraram, em 2025, os maiores números de toda a série histórica iniciada em 2019.
Falta de transparência dificulta o enfrentamento da violência
Além do aumento da letalidade, o relatório chama atenção para problemas de transparência na produção de dados oficiais. Maranhão e Ceará ainda apresentam elevados percentuais de registros sem informação sobre raça ou cor das vítimas, o que dificulta o diagnóstico da violência policial. Segundo os pesquisadores, a melhoria na qualidade dos dados torna ainda mais evidente o impacto desproporcional da letalidade sobre a população negra.
Relatório defende mudanças na política de segurança pública
Ao reunir dados oficiais, análises e relatos de lideranças comunitárias, o relatório defende que enfrentar a letalidade policial passa pelo reconhecimento do racismo como elemento estruturante das políticas de segurança pública.
Para a Rede de Observatórios da Segurança, reduzir a violência exige fortalecer mecanismos de controle da atividade policial, ampliar a transparência dos dados e priorizar políticas públicas voltadas à proteção da vida, especialmente da juventude negra.
Metodologia
A sétima edição do relatório "Pele Alvo: entre racismo e letalidade, o amanhã" baseia-se na coleta de dados oficiais junto às secretarias de segurança pública dos nove estados monitorados (Amazonas, Bahia, Ceará, Maranhão, Pará, Pernambuco, Piauí, Rio de Janeiro e São Paulo).
As informações são obtidas por meio de solicitações via Lei de Acesso à Informação e passam por validação e padronização pela Rede de Observatórios; O monitoramento mantém a comparabilidade com os dados coletados desde 2019.

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