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“Mães em Luto da Zona Leste”: duplo reconhecimento e homenagens em SP e RJ

DIREITOS HUMANOS


Entidade ajuda a denunciar o terrorismo do estado que é trazido pela violência policial   


Por Aristides Barros


Solange recebe a medalha

Ativista dos direitos humanos, Solange de Oliveira Antônio, 54 anos, decidiu não se calar diante da morte de seu, executado pela polícia em 3 de março de 2015, no bairro de Perdizes, em São Paulo. Do sangue do filho nasceu o Movimento Mães em Luto da Zona Leste, que denuncia o terrorismo de estado por meio de ações violentas da polícia paulista, cujo grau de letalidade passou a ser conhecido nacional e internacionalmente, após o Massacre do Carandiru, ocorrido em 1992. 


Fundado por Solange no mesmo ano da morte do filho, a “Mães em Luto” recentemente foi honrada com homenagens em São Paulo e no Rio de Janeiro marcando o reconhecimento do trabalho de buscar conseguir justiça a pessoas que recorre a entidade para tentar descortinar as circunstâncias que levaram a perda de um familiar, parente ou conhecido, morto em supostos confrontos com a polícia.  


Em São Paulo, Solange foi agraciada pela Câmara Municipal com o Prêmio Marielle Franco e no Rio de Janeiro a honraria partiu do Grupo Tortura Nunca Mais, com a entrega da medalha Chico Mendes. A reportagem entrevistou a homenageada que é um símbolo de luta na defesa dos direitos humanos


Homenagem dos paulistas

Você preside o Movimento Mães em Luto da Zona Leste. Qual o motivo de ter criado essa entidade?

Sim sou a fundadora do movimento e ele foi criado depois que meu filho Victor Antonio Brabo foi executado por um policial civil.                         


Atualmente quantas pessoas (mulheres, homens) fazem parte do “Mães em Luto”?

Somos em 20 pessoas entre mães e familiares aqui em São Paulo.                      


De que forma a entidade trabalha os casos que chegam até ela?

Os casos que chegam até nós são encaminhados para a Defensoria Pública do Estado de São Paulo.                              


As pessoas chegam determinadas a fazer denúncias envolvendo violência policial ou ficam receosas?

Algumas chegam dispostas em fazer a denúncia, e alguma chegam receosas.                         


A entidade tem uma estatística que aponte se as denúncias acabam em penalizações aos envolvidos ou terminam em impunidade?

Teve denúncia que o policial virou réu mas infelizmente no júri popular foi absolvido. Mas, infelizmente, a maioria dos casos nem chega a virar processo e são arquivados.                     


Tem um número aproximado de quantas denúncias o “Mães em Luto” já trabalhou durante esse tempo todo de existência da entidade?

Infelizmente não temos um registro sobre isso, mas já foram muitas.                              


Quais órgãos ou instituições dão apoio às ações do “Mães em Luto”?

Defensoria Pública, Ouvidoria da Polícia, Centro de Direitos Humanos de Sapopemba,  Núcleos de Estudos  da Violência da Universide de São Paulo (NEV-USP), Observatório da PUC,  Rede Nacional de Mães e Familiares Vítimas do Terrorismo do Estado,  Associação de Amigos/as e Familiares de Presos/as (Ampara), Conselho Estadual de Direitos da Pessoa Humana (Condepe- SP), entre outros, incluíndo o trabalho da imprensa.  


Pra você o que significa a conquista desses prêmios?

É um reconhecimento de que estamos no caminho certo. Mas gostaria mesmo é que meu filho tivesse recebido essas premiações de ele ter os sonhos realizados. Nada disso é só sobre mim, é sobre cada história que precisa ser lembrada, cada luta que precisa continuar e cada vida que merece dignidade. Sigo guiada pelos valores que me sustentam: justiça, verdade, memória, reparação e igualdade. Gratidão a todos que caminham comigo.


SOFRIMENTO MATERNO

Livro escrito a partir da dor da perda

O livro Mães em Luta, lançado em 2023 pelo movimento, que foi escrito por mães de vítimas da violência policial traz trecho sobre a sensação da perda irreparável 

“Luto é uma dor forte, dilacerante e rasga a alma. Luto é preparar o café e esperar pelo outro, é perceber que aquele lugar está vazio. É as velas apagadas das datas comemorativas, é bater palmas para um ser invisível. É pegar o celular e aguardar aquela ligação, rever aquela foto, abrir os braços e não ter quem abraçar. É sentir-se culpado por tentar ser feliz de novo.” 

  

  


 

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